O sol do meio dia queimava a pele alva de uma menininha magra, que corria desesperadamente em busca da mãe, tentando encurtar a distancia dos duzentos metros que a separava da casa de veraneio onde passavam férias. Mas, pior que o sol, era o ardor instalado naquele coraçãozinho apavorado de medo, de angústia, de desepero. Esta criança era eu, que com onze anos de idade, percebi a iminência da primeira perda irreparável que a vida me preparava.
Normalmente, os nossos meses de férias eram na casa da tia Zulmira, na querida Timonia . Eu e meus irmãos, contávamos as horas para que chegassem os nossos dias de sonhos e nos aboletássemos no caminhão do tio Zé, para percorrermos os quarenta e sete quilometros que nos levassem à total diversão. Andar a cavalo, ordenhar vacas, dar mamadeiras aos cabritinhos, fazer bonecas de pano, apanhar oiticica e tomar banho no rio eram as nossas brincadeiras prediletas e apaixonantes. Além do que, tínhamos a tia Zulmira, que realizava todos os nossos desejos, o tio Felipe que nos ensinava a pilar o arroz, o tio João Simão que nos mandava tanger as galinhas para que não comessem o milho exposto ao sol para secagem. Comer gema de ovo batida com leite, tomar coalhada e leite mugido ao raiar do dia, fazia das nossas redações escolares, as mais belas, com descrições minuciosas das nossas férias. Éramos os filhos da Chichica e do Benedito e nos sentíamos as crianças mais amadas do mundo. Eramos os reis e rainhas daquela casa que se iluminva com a nossa chegada barulhenta e todos queriam que fossemos muito felizes durante todos os dias que ali ficávamos. Os empregados da casa eram instruídos a fazer o que preciso fosse para a nossa alegria, andavam quilômetros para comprar pão se não queríamos comer tapioca, e se tornavam nossos amigos e mais tarde nossos compadres e comadres. As fogueiras acessas no terreiro de casa para receber as visitas das tias e primos que iam todas as bocas da noite ou as lamaparinas a querosene, me favoreciam a ir dormir, pois tinha pavor do escuro, mas as minhas primas Maria e Rosário eram incubidas de deixar sempre uma acesa para mim até eu adormecer. Tive este hábito de dormir com luz acesa por perto até adulta e foi com um namorado que perdi este medo. Nas fogueiras, brincávamos também de adquirir padrinhos e madrinhas de fogo, que formavam elos perdurados até hoje.
Quanta alegria, quanta felicidade vivenciamos naquela casa linda, onde se respirava harmonia, união, trabalho, equilibrio, respeito e onde a gente imaginava que não existisse outro lugar no mundo mais belo do que aquelas terras de carnaubeiras.
Os passeios que fazíamos às casas dos nossos avós, dos nossos tios e amigos que moravam nas vizinhança, se tornavam euforia, porque era a certeza de comilhança, de brincadeiras com os primos, de paqueras de criança e proximidade com a família. Creio que estes momentos consequenciaram a união e amor que nos une sempre a família da mamãe, independente da distância que a vida impõe quando ficamos adultos e tomamos rumos diferentes.
E foi numa destas férias inesquecíveis, num fatídico vinte e cinco de julho, em pleno sol de meio dia, que morria a criança magra e alva, sorridente e espevitada, feliz e inteligente, porque morri juntamente com meu pai.
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